O PAI DA UMBANDA
Jorge César Pereira Nunes
02/12/2008
Considerada por muitos como a única religião verdadeiramente brasileira, por reunir elementos da cultura indígena, africana e européia, a umbanda completou seu primeiro centenário em 2008.
Apesar disso, o culto ainda é visto com maus olhos por alguns líderes protestantes. A discriminação sofrida pelos umbandistas não é de hoje e está na própria raiz da religião, como atesta a história de Zélio Fernandino de Moraes.
Jovem de uma tradicional família de São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro, Zélio completou 17 anos em abril de 1908. Preparava-se para prestar exames para a Escola Naval, quando uma estranha paralisia pôs fim a seus planos. Renomados médicos foram chamados e iniciaram uma série de tratamentos, mas nenhum deles conseguia diagnosticar a doença do rapaz e seu estado de saúde só se agravava.
A partir de outubro, Zélio começou a falar palavras sem nexo, teve visões e apresentou quadro de aparente perturbação mental. Sem sucesso, outros clínicos buscavam cura para os males. Seria difícil imaginar que a solução viria do próprio enfermo. Em novembro, Zélio anunciou a seus pais que voltaria a andar. De fato, um dia depois do aviso, ele estava novamente em pé. Os sinais tidos como distúrbio da mente, no entanto, permaneciam.
Muito católica, a família recorreu então aos padres, que aconselharam o retorno aos tratamentos médicos especializados. Por sua vez, suspeitando de uma obsessão espiritual, um vizinho recomendou levá-lo à Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro. A instituição fora fundada em 1907 em Niterói, onde funciona até hoje.
Durante uma reunião com o presidente e outros membros da Federação, o jovem incorporou um caboclo e foi recriminado pelo dirigente da mesa devido ao "atraso espiritual" desta alma. Zélio protestou e anunciou que, no dia seguinte, seria iniciada uma nova religião, "em que esses pretos e esses índios poderão dar a sua mensagem, e assim cumprir a sua missão".
Assim, na noite de 16 de novembro, uma multidão aglomerava-se na Rua Floriano Peixoto, no bairro de Neves, em São Gonçalo. Todos aguardavam Zélio que, em breve, fundaria a Tenda de Umbanda Nossa Senhora da Piedade. A espera não foi em vão: nascia ali uma nova religião.
Zélio nunca explicou a razão da palavra “umbanda”, embora ele tenha vivido até 1975. Por isso, historiadores divergem sobre sua procedência, mas a imensa maioria acredita que ela decorra do vocábulo “m’banda”, usada pelas tribos Quimbundo, da África, para designar os seus sacerdotes, e que era também uma palavra sagrada dos índios tupis. Portanto, uma tradução livre indicaria “Tenda de Sacerdotes”.
Sua criação foi seguida, no mesmo ato, de algumas regras básicas e simples, tais como o uso apenas de roupas brancas, ter como adereço somente uma fita da cor do orixá ou do santo do dia comemorado, não receber nenhuma recompensa dos que recorrem à Umbanda, não praticar sacrifício de animais e fazer da caridade a prática permanente segundo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Em 1918, Zélio criou sete novas tendas. Apenas uma delas ficou no distrito de Neves, pois a maioria foi para o Rio de Janeiro, capital do país na época, o que pode ter contribuído para a expansão da crença por todo território nacional.
Zélio, entretanto, não se dedicava apenas à umbanda. Como era norma não receber recompensa pelo bem distribuído, também trabalhava como comerciante. Em 1924, fez uma incursão na política e foi eleito vereador. Três anos depois, foi reeleito e escolhido por seus pares para ser secretário do Legislativo gonçalense. No poder público, dedicava-se principalmente à difusão de escolas públicas, tanto que ele mesmo criara uma, gratuita, de curso primário, em seu centro espírita para atender as crianças de Neves.
Casado com dona Isabel de Moraes, teve duas filhas, Zélia e Zilméia, às quais passou a direção da tenda original em 1963. Zélio faleceu no dia 3 de outubro de 1975 em Cachoeiras de Macacu, no Rio de Janeiro. Como homenagem, a Câmara Municipal de São Gonçalo batizou com seu nome uma rua no bairro de Mangueira.
CONSIDEREÇÕES FAMILIÁRES
Leonardo Cunha
12/09/2014
Amigos fraternos, Nós da família de Zélio de Moraes, sempre nos sentiremos imensamente honrados e agradecidos por qualquer manifestação respeitosa que ajude na divulgação do trabalho de meu bisavô como médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas e da história da Umbanda, para nós, sempre associada à própria história de nossa família.
Sem querer fazer qualquer crítica ao autor do texto, mas tão somente me manifestar a título de esclarecimento em relação ao conteúdo apresentado, farei considerações que considero importantes para aperfeiçoá-lo. Falo como testemunha de algumas poucas, porém marcantes, histórias e como ouvinte atento das falas de meu bisavô, com quem convivi, de forma intensa, até o seu desencarne. E também como conhecedor de outras tantas, narradas por meus avós (todos membros da TENSP), tios-avós e de meus pais (idem), que presenciaram muitas delas.
Minhas considerações são as seguintes:
1º - Não é verdade que Zélio nunca tenha explicado a razão da palavra “umbanda”. Na verdade, o “Chefe”, como o Caboclo das Sete Encruzilhadas era chamado em nossa tenda (Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, ou simplesmente, TENSP), explicou que o nome original seria Allabanda, como pode ser ouvido na voz do próprio Zélio, numa das fitas gravadas por Lilia Ribeiro em 1971, em entrevista para o periódico umbandista, “Macaia”, tendo o seguinte significado: Allah (Deus)+banda (ao lado), ou seja, a “Deus ao lado” ou “Deus conosco”.
Na mesma gravação, ele explica que em razão da sonoridade não ter sido considerada ideal, a expressão original foi alterada para Aumbanda, evoluindo para a forma Umbanda, mantendo, porém, o mesmo significado. Em nosso entendimento, o fato de haver vocábulos semelhantes em outras línguas, seja em quimbundo, tupi, sânscrito, ou qualquer outra, pouco significa; servindo tão somente para inúmeras conjecturas e teorias. Para entender nosso pensamento, bastaria considerarmos a quantidade de palavras existentes no português do Brasil e no de Portugal, não apenas com sonoridade semelhante, mas com grafia exatamente igual, dotadas de significados completamente díspares.
Peço que não tomem tal visão como arrogância ou coisa similar, mas tão somente como respeito à fala daquele que é reconhecido como o médium através do qual foi criada a Umbanda. Se o Caboclo das Sete Encruzilhadas é respeitado como o fundador da Umbanda e Zélio como o médium que recebeu esta entidade, por que devemos duvidar de suas palavras?
Além do significado etimológico explicado acima, o “Chefe” sempre disse que a Umbanda “era a manifestação do espírito para a (prática da) caridade”. Esta era a sua essência, a razão de sua existência. Numa outra abordagem, que funcionava como uma espécie de “bandeira” ou lema, dizia que Umbanda era “humildade, amor e caridade”.
2º - Em relação às roupas brancas (que deveria ser a mais simples possível), a informação está correta, mas as fitas coloridas eram apenas de duas cores, nada tendo a ver com orixás ou santos do dia.
As cores usadas nas fitas eram, ou melhor, são (já que as usamos até hoje): Fitas verdes: para cambonos cruzados. Fitas vermelhas: para médiuns já desenvolvidos (ou seja, aptos a receber entidades). Importante dizer que o uso destas fitas não tem conotação hierárquica, representando apenas a função desempenhada no terreiro. Cambonos e médiuns iniciantes não usam fitas e médiuns em desenvolvimento avançado usam uma fitinha vermelha fixada por alfinete no jaleco (antes usávamos camisas) dos homens e no vestido (branco e de algodão, muito singelo) das mulheres.
Além disso, usamos nas sessões (como chamamos nossas reuniões), sejam as festivas ou de caridade, as “guias” (cordões de contas coloridas), que poderiam ser entendidas como adereços, mas que na verdade têm função prática (fluídica) e não estética. Servindo para defesa e proteção dos filhos da casa. Essas guias sim, são associadas aos orixás ou às entidades, de alguma forma, vinculadas ao membro da tenda, sejam eles trabalhadores do terreiro ou participantes da assistência (com até hoje chamamos os que buscam nossa casa para se consultar ou receber passes). Seu uso fora do terreiro é facultativo, sendo comum o uso diário da guia com a qual a pessoa mais se identifica ou se sente protegida.
3º - As 7 novas tendas foram criadas não em 1918, mas entre esse ano e 1935.
4º - No ano de 1940, a TENSP deixa Neves no Município de São Gonçalo e também se instala na região central da então capital da República, Rio de Janeiro, mudando várias vezes de endereço, ao sabor da dinâmica urbanística da cidade.
5º - Foi casado com Maria Isabel de Moraes e tiveram 4 filhos: Zélio Morse de Moraes, Zélia de Moraes Lacerda, Zilméa Moraes da Cunha e Zarcy Morse de Moraes.
6º - A direção da TENSP foi passada à Zélia em 1967, com Zilméa se dedicando mais ao trabalho espiritual. Zilméa só passaria a dirigir a Tenda após a passagem de Zélia em 2000. Por último gostaria de fazer um reparo não ao texto, mas ao comentário da irmã Neusa Maria, que se refere ao Caboclo das Sete Encruzilhadas como um “EXÚ poderoso”... O “Chefe” era um caboclo da linha de Oxossi apesar do nome, que pode tê-la induzido ao erro. Escolhido para significar que para ele “não existiriam caminhos fechados”.
Espero ter ajudado.
Um grande abraço a todos e que Oxalá os abençoe.
Leonardo Cunha.
Matéria da Revista História. - http://www.revistadehistoria.com.br