O PAI DA UMBANDA
Jorge César Pereira NunesConsiderada por muitos como a única religião verdadeiramente brasileira, por reunir elementos da cultura indígena, africana e européia, a umbanda completou seu primeiro centenário em 2008.
Apesar disso, o culto ainda é visto com maus olhos por alguns líderes protestantes. A discriminação sofrida pelos umbandistas não é de hoje e está na própria raiz da religião, como atesta a história de Zélio Fernandino de Moraes.
Jovem de uma tradicional família de São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro, Zélio completou 17 anos em abril de 1908. Preparava-se para prestar exames para a Escola Naval, quando uma estranha paralisia pôs fim a seus planos. Renomados médicos foram chamados e iniciaram uma série de tratamentos, mas nenhum deles conseguia diagnosticar a doença do rapaz e seu estado de saúde só se agravava.
A partir de outubro, Zélio começou a falar palavras sem nexo, teve visões e apresentou quadro de aparente perturbação mental. Sem sucesso, outros clínicos buscavam cura para os males. Seria difícil imaginar que a solução viria do próprio enfermo. Em novembro, Zélio anunciou a seus pais que voltaria a andar. De fato, um dia depois do aviso, ele estava novamente em pé. Os sinais tidos como distúrbio da mente, no entanto, permaneciam.
Muito católica, a família recorreu então aos padres, que aconselharam o retorno aos tratamentos médicos especializados. Por sua vez, suspeitando de uma obsessão espiritual, um vizinho recomendou levá-lo à Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro. A instituição fora fundada em 1907 em Niterói, onde funciona até hoje.
Durante uma reunião com o presidente e outros membros da Federação, o jovem incorporou um caboclo e foi recriminado pelo dirigente da mesa devido ao "atraso espiritual" desta alma. Zélio protestou e anunciou que, no dia seguinte, seria iniciada uma nova religião, "em que esses pretos e esses índios poderão dar a sua mensagem, e assim cumprir a sua missão".
Assim, na noite de 16 de novembro, uma multidão aglomerava-se na Rua Floriano Peixoto, no bairro de Neves, em São Gonçalo. Todos aguardavam Zélio que, em breve, fundaria a Tenda de Umbanda Nossa Senhora da Piedade. A espera não foi em vão: nascia ali uma nova religião.
Zélio nunca explicou a razão da palavra “umbanda”, embora ele tenha vivido até 1975. Por isso, historiadores divergem sobre sua procedência, mas a imensa maioria acredita que ela decorra do vocábulo “m’banda”, usada pelas tribos Quimbundo, da África, para designar os seus sacerdotes, e que era também uma palavra sagrada dos índios tupis. Portanto, uma tradução livre indicaria “Tenda de Sacerdotes”.
Sua criação foi seguida, no mesmo ato, de algumas regras básicas e simples, tais como o uso apenas de roupas brancas, ter como adereço somente uma fita da cor do orixá ou do santo do dia comemorado, não receber nenhuma recompensa dos que recorrem à Umbanda, não praticar sacrifício de animais e fazer da caridade a prática permanente segundo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Em 1918, Zélio criou sete novas tendas. Apenas uma delas ficou no distrito de Neves, pois a maioria foi para o Rio de Janeiro, capital do país na época, o que pode ter contribuído para a expansão da crença por todo território nacional.
Zélio, entretanto, não se dedicava apenas à umbanda. Como era norma não receber recompensa pelo bem distribuído, também trabalhava como comerciante. Em 1924, fez uma incursão na política e foi eleito vereador. Três anos depois, foi reeleito e escolhido por seus pares para ser secretário do Legislativo gonçalense. No poder público, dedicava-se principalmente à difusão de escolas públicas, tanto que ele mesmo criara uma, gratuita, de curso primário, em seu centro espírita para atender as crianças de Neves.
CONSIDEREÇÕES FAMILIÁRES
Leonardo CunhaAmigos fraternos, Nós da família de Zélio de Moraes, sempre nos sentiremos imensamente honrados e agradecidos por qualquer manifestação respeitosa que ajude na divulgação do trabalho de meu bisavô como médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas e da história da Umbanda, para nós, sempre associada à própria história de nossa família.
Na mesma gravação, ele explica que em razão da sonoridade não ter sido considerada ideal, a expressão original foi alterada para Aumbanda, evoluindo para a forma Umbanda, mantendo, porém, o mesmo significado. Em nosso entendimento, o fato de haver vocábulos semelhantes em outras línguas, seja em quimbundo, tupi, sânscrito, ou qualquer outra, pouco significa; servindo tão somente para inúmeras conjecturas e teorias. Para entender nosso pensamento, bastaria considerarmos a quantidade de palavras existentes no português do Brasil e no de Portugal, não apenas com sonoridade semelhante, mas com grafia exatamente igual, dotadas de significados completamente díspares.
Além do significado etimológico explicado acima, o “Chefe” sempre disse que a Umbanda “era a manifestação do espírito para a (prática da) caridade”. Esta era a sua essência, a razão de sua existência. Numa outra abordagem, que funcionava como uma espécie de “bandeira” ou lema, dizia que Umbanda era “humildade, amor e caridade”.
As cores usadas nas fitas eram, ou melhor, são (já que as usamos até hoje): Fitas verdes: para cambonos cruzados. Fitas vermelhas: para médiuns já desenvolvidos (ou seja, aptos a receber entidades). Importante dizer que o uso destas fitas não tem conotação hierárquica, representando apenas a função desempenhada no terreiro. Cambonos e médiuns iniciantes não usam fitas e médiuns em desenvolvimento avançado usam uma fitinha vermelha fixada por alfinete no jaleco (antes usávamos camisas) dos homens e no vestido (branco e de algodão, muito singelo) das mulheres.
Além disso, usamos nas sessões (como chamamos nossas reuniões), sejam as festivas ou de caridade, as “guias” (cordões de contas coloridas), que poderiam ser entendidas como adereços, mas que na verdade têm função prática (fluídica) e não estética. Servindo para defesa e proteção dos filhos da casa. Essas guias sim, são associadas aos orixás ou às entidades, de alguma forma, vinculadas ao membro da tenda, sejam eles trabalhadores do terreiro ou participantes da assistência (com até hoje chamamos os que buscam nossa casa para se consultar ou receber passes). Seu uso fora do terreiro é facultativo, sendo comum o uso diário da guia com a qual a pessoa mais se identifica ou se sente protegida.
Matéria da Revista História. - http://www.revistadehistoria.com.br
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